HISTORIADORES E AS POSSÍVEIS RESISTÊNCIAS AO MERCADO EMPRESARIAL
Este texto é a famosa “meia culpa”, buscamos mostrar algumas questões que influenciam historiadores a não pensarem em alternativas através de atividades em empresas privadas. Sempre impulsionando o diálogo entre áreas, e o (re)pensar sua profissão, e suas equipes!
Ensino Fundamental e Médio
Não somos estimulados a pensar como as ciências estão interligadas, nosso ensino não nos ensina a raciocinar, aplicar saberes, e resolver seus problemas diários com a base nos conteúdos ministrados nas escolas.
Somos ensinados a decorar, com o professor sendo a figura central do ensino, dificilmente os conteúdos dialogam com a sociedade contemporânea, ou com as vivências dos estudantes. Esta estrutura infelizmente permanece no Ensino Superior.
Você não é estimulado a expandir a sua caixa, usar a criatividade aliada a produção e sobrevivência, trabalhar conceitos como empatia, cidadania e sustentabilidade, por exemplo. Perceber que os diálogos multidisciplinares, estão relacionados a capacidade de convívio, e isso, pode e deve impactar na escolha da graduação, como irá absorver a experiências da graduação, e sua atuação no mercado de trabalho.
Instituições de Ensino Superior
A maioria das pessoas entra nestes espaços sem nenhuma experiência no mercado de trabalho, o que influencia nas críticas e reformas solicitadas tanto nas aulas, quanto na instituição em si. Os programas de cotas e programas de permanência estudantil, possibilitaram que este perfil fosse mudando, ainda bem!
A falta da integração entre os diferentes cursos dentro de uma mesma instituição, dificulta uma visão integrada entre as áreas de conhecimento, o que se expande para o mercado de trabalho. Do mesmo jeito, que existem poucas ações para integrar com a sociedade, as pessoas que estão fora da universidade, não compreendem o que acontece lá dentro, os de dentro, não compreendem as necessidades do meio externo, não são preparados para a realidade do mercado, e deste modo, impactam pouco.
Universidades tem três frentes, ensino, pesquisa e extensão. Após o ensino, que é o motivo de ser das mesmas, a que mais valorizo é a extensão, mas infelizmente não é valorizada nas instituições. Extensão possibilita perceber a sociedade e suas necessidades, nos levando a pesquisa, em prol de buscar formas de supri-las. Nessa busca, compreendemos que um olhar multicultural e multidisciplinar sobre os problemas permitem soluções que impactam verdadeiramente a sociedade, podendo ser multiplicadas e ainda retroalimentam as universidade.
Como falta esta integração, temos poucas oportunidades de acompanhar a própria atuação dos profissionais formados nos mesmos cursos que a gente. Este diálogo, favorece o (re)pensar e criar novas possibilidades sincronizadas com o mercado.
A graduação
Algumas questões internas, dos formados em História, coletadas de forma empírica em diferentes rodas de conversas nos eventos “da classe”, trazem alguns pontos para observarmos.
Estudamos o universo do trabalho através dos ciclos econômicos, sistemas governamentais, dos diferentes conceitos do que é considerado trabalho, do valor e como define o ser humano, digamos que não são visões positivas, pois estudamos escravidão, escravidão contemporânea, capitalismo (selvagem) com diversas explorações em troca de uma carteira assinada, um mundo hierarquizado onde o dinheiro comanda. A história dos vencidos, os silêncios e ausências, racismos e preconceitos. A figura do patrão enquanto uma pessoa que só visa o lucro, e nada mais. O medo de “se vender” é (praticamente) iminente.
Que respinga, na função social do historiador, que é impulsionar as mudanças sociais, gerar impacto social. Ficamos com dúvidas, “Como eu vou trabalhar para empresas? Terei que "defendê-la"? Terei que mostrar apenas o seu lado positivo para as pessoas?”.
Como farei uma pesquisa, seguindo as metodologias da área (na maioria das vezes interdisciplinar), paga pela empresa, e ao descobrir que ela cresceu com base no trabalho escravo? E se ela contribuiu para o holocausto? Como posso fazer o meu trabalho sem "interferências" do empregador, para que possamos expor tais descobertas e trabalhar de forma positiva seu futuro?
Outra questão, é a não compreensão das linguagens de cada área. Pelo isolamento existente entre as ciências. Eu falo, mas eu não sei o que você está escutando. Do mesmo jeito, que poderíamos apresentar projetos para empresas privadas e eles serem lidos, ou até aceitos.
O mercado empresarial se modifica, mais rápido do que imaginamos, pelas alterações nas tecnologias e necessidades, existem empresas compatíveis para todos, as startups inclusive, trouxeram um frescor e um impulso ao empreendedorismo.
Aliás, não somos ensinados a termos nosso próprio negócio, ou sermos autônomos, trabalhando como freelancers, ou vendendo projetos para empresas privadas, ou até mesmo, sobreviver de editais.
Falta da regulamentação
Somente este ano de 2020 conseguimos a regulamentação da profissão Historiador. Antes disso, a forma mais comum, de absorver esses profissionais, era por meio da docência e dos poucos concursos públicos, mesmo este profissional sendo bacharel.
Fomos nos distanciando do mercado empresarial, não acompanhando suas transformações, e novas possibilidades, fomos circunscritos nas poucas instituições que envolvem memória e patrimônio, onde não temos vagas específicas.
É necessário levar em consideração que a formação dos profissionais tem grande impacto na maneira como irão pensar e agir em seus ofícios, compreender e repensar seus limites de atuação dentro da sociedade e do mercado.
Concluindo
Dito isso, um dos nossos intuitos aqui é informar, interagir, para que através do diálogo, pessoas de diferentes áreas e empresas, pensem na possibilidade de empregar um historiador ou historiadora.
Por muito tempo vivemos isolados, sem pensar em todo um ciclo das possíveis atuações de um Historiador, o sucesso da profissão, muito associado a única atuação possível, a sala de aula, nos resumiu a disputar vagas como professores no ensino superior, “esquecendo” de todo um universo de novas possibilidades, muitas vezes ousada, para as empresas privadas.
Vale considerar sim! Expandir seus horizontes, neste mundo compartilhado em que, a maioria das pessoas, precisa de dinheiro para manter os direitos básicos de moradia, alimentação e saneamento básico.
Deixo a provocação: com quantas historiadoras/res você está conectado em seu Linkedin?
Aproveito e convido você a acompanhar este Blog, nosso objetivo (aqui) é divulgar as atividades e ocupações que historiadoras/res podem exercer no mercado de trabalho, para além das salas de aulas. Toda semana, um texto novo!
[BernunçaWHO? veja onde estamos + BernunçaWHO?, siga, comente, compartilhe!
Comentários
Postar um comentário